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21/04/2018 - 13:40

IDEOLOGIAS OU...IDEOPATIAS ?

Alcides Costa


Alcides Costa
 
Nos meus tempos de internato, início da adolescência, no centro cultural e político do Brasil, Rio de Janeiro, tínhamos,  um grupo de alunos, uma biblioteca particular. A par da biblioteca oficial, digamos assim, do colégio, de acervo muito rico por sinal, tínhamos uma nossa a que denominávamos informalmente “biblioteca nacionalista”. Desta, o acervo era bem pobre, em termos quantitativos, pouco mais de duas dezenas de livros talvez, no seu auge. Qualitativamente porém era, para nós, riquíssima; porque ali estavam as obras principais dos autores que na época encarnavam o ideal que nos unia: o nacionalismo.
 
Osny Duarte Pereira, Celso Furtado, Caio Prado Jr. eram alguns dos principais pensadores nacionalistas que ainda guardo na lembrança, e que frequentavam as prateleiras dos nossos armários.
 
Eram os anos 60. O mundo polarizado, e o Brasil também, política e ideologicamente, entre as duas super potências: Estados Unidos e União Soviética. Anos de grande tensão, com a “guerra fria” aquecendo cada vez mais, a juventude era muito engajada politicamente e o ideário nacionalista nos atraía fortemente. Afinal de contas, nós  estávamos  na faixa de 13 a 18 anos, descobrindo o mundo; como não nos encantarmos com a perspectiva de construir um país forte, soberano, independente e desenvolvido social e economicamente? Como não vibrar com o sonho de libertação de milhares de brasileiros da fome, da injustiça social, da desigualdade extrema vigente há séculos, da opressão das oligarquias internas e do grande vilão externo sobr e o nosso sofrido povo?
 
Pelo menos dois grandes fatores para o nosso atraso,  e para o estrangulamento do processo de desenvolvimento nacional,  eram praticamente unanimidade entre todos os nacionalistas: internamente a estrutura agrária anacrônica e injusta dominada pelo latifúndio. Milhões de camponeses oprimidos e sem terra para trabalhar e progredir, de um lado; e, de outro lado, milhões de hectares de terra na posse de alguns poucos oligarcas latifundiários que os detinham como reserva de valor. Externamente o grande vilão também estava claramente definido e tinha um nome: Estados Unidos, ou o velho Tio Sam, com seu porrete, com sua cartola estrelada e barbicha, figura comumente estampada na época, era o responsável por sugar nossas melhores energias e drenar nossos recursos para o Norte através de relações comerciais injustas e remessas de lucros leoninas, aproveitando-se de seu poder geopolítico.
 
A solução para esses problemas também era conhecida: para o primeiro a Reforma Agrária. Ou seja, um programa de redistribuição e re-ordenamento de terras no país todo, que permitisse impulsionar o desenvolvimento nacional a partir de milhões de novos  médios proprietários que seriam integrados ao mercado com todos os benéficos efeitos desse processo no plano econômico e social. Para o segundo, a instauração no país de um governo nacionalista que rompesse as relações de subserviência a que o Brasil se submetia na sua interação com os outros países, primordialmente  os Estados Unidos, e fizesse prevalecer nossa autonomia e soberania geopolítica e econômica. Daí a frase pichada em todos os lugares: “Yankees G o Home”.
 
Então era esse o pano de fundo que existia naquele tempo e que em geral condicionava, determinava e orientava as posições político-ideológicas que eram assumidas tanto à “esquerda” como à “direita”.
 
De modo que os debates e confrontações entre as duas vertentes de pensamento e convicções se davam num plano bastante elevado de macro questões de cunho político, econômico e social envolvendo também, e necessariamente, macro propostas e projetos de cunho estratégico, numa perspectiva de se configurar claramente respostas à pergunta: “que país e que sociedade queremos para o futuro”? Pelo menos do lado da chamada “esquerda” (com sua identidade bem determinada) era neste nível que se discutia.
 
Ou seja, havia bastante clareza a respeito dos dois campos ideológicos e desta forma fazia todo sentido se falar em esquerda e direita. Quando tais termos eram enunciados, facilmente na nossa imaginação era possível configurar o “tipo padrão” de opinião/comportamento que identificava tal ou qual campo.
 
Mas hoje em dia, o que significa “esquerda” e “direita”? Confesso ter extrema dificuldade em conceber algo um pouco mais palpável e “definível” quando leio essas palavras até abundantes nas redes sociais da vida (que, para o bem ou para o mal, também não existiam naquela época), no tiroteio literário do cotidiano.
 
As principais referências pertinentes que eu tinha já desapareceram de há muito. A União Soviética, coitada, já “subiu na fumaça” há muito tempo. A reforma agrária, bandeira sagrada da esquerda de antanho, foi deixada no canto, esquecida até mesmo nos 14 anos de governo (de esquerda?) do PT. 
 
Os Estados Unidos é visto hoje de forma muito diferente do que no meu tempo de juventude, depois de quase três décadas de globalização...Novos temas importantíssimos como a questão ambiental, a corrupção epidêmica, a ascensão do crime organizada e a insegurança pública, por exemplo não são devidamente tratados pelos ideólogos atuais; e quando abordados o são com um viés político de baixo nível do tipo “só é condenável quando serve para incriminar ou detratar o adversário”. Ou seja, não se discutem estes e outros gravíssimos problemas nacionais em tese, e com propostas e programas estratégicos consequentes, como seria lícito esperar das lideranças herdeiras destes pretensos campos ideológicos de esquerda e direita. Na verdade, enveredam e se engalfinham por temas que apesar de importantes, nada têm ao meu ver com política e ideologia, e tudo a ver com moral, cultura e até mesmo ciência, como aborto e preconceitos de toda ordem.
 
Não consigo então vislumbrar nos debates de hoje duas ideologias, uma de esquerda e outra de direita, que possam se diferenciar claramente a partir de referências conceituais e propositivas elevadas e de conteúdo consistente, que mereçam ser consideradas numa discussão sobre o futuro do nosso país. Não vejo análises políticas ou filosóficas que possam ajudar a encontrar caminhos, pontos em comum em torno dos quais nós, brasileiros, possamos nos unir e lutar, visando o futuro da sociedade brasileira. Vejo mais troca de desaforos, expressão de ódios e preconceitos, entre correntes que se agridem numa linguagem de baixo nível, numa troca interminável de ofensas que na realidade leva a ...nada. Essas correntes parecem ter como referências maiores não ideologias, mas patronos, heróis, a quem devotam cegamente sua fidelidade e por quem abdicam até mesmo da sua capacidade e liberdade de refletir e criticar. Ou seja, abdicam de si mesmos, se despersonalizam, em favor de alguém que certamente não merece esse sacrifício.
 
Se isso é ideologia, creio que padece de grave doença. Por isso a pergunta: ideologia ou ideopatia? (Cabe o registro de que não sei se essa palavra – ideopatia – existe na língua portuguesa. Se não existir, tomo a liberdade de expressá-la com o significado de ideologia doente; afinal o Magri popularizou o “ imexível” e veio agora o Temer com “incogitável”,  de modo que também tenho o direito, se for o caso).
 

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