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20/10/2018 - 10:15

POLÍTICA E MENTIRA

Alcides Costa

 
Pouquíssimos sabem, mas no início, a política e a mentira nasceram grudadas!  Irmãs siamesas, sim senhor! Foram encontradas recém-nascidas, abandonadas, chorando muito,  e foram acolhidas por corações bondosos.  Primeiras siamesas de que se teve notícia, provavelmente por isso tenham sido abandonadas; os pais, para sempre desconhecidos,  talvez tenham ficado horrorizados diante daquela deformidade, acrescido do fato de que não eram bebês lindinhos, muito pelo contrário. Mas tiveram a sorte de encontrar alguém que se interessasse por elas. 
 
Detalhe muito interessante é que tinham tudo separado menos um órgão: o estômago. Eram siamesas ligadas pelo abdômen, com um estômago comum, de modo que seus cuidadores não se preocupavam se estavam dando a mamadeira para uma ou para outra; ao alimentar uma a outra também estava sendo alimentada automaticamente. E desde logo se notou sua grande voracidade; mal acabava uma mamada, dentro em pouco outra tinha que ser preparada. 
 
Mas algumas diferenças entre elas, como soe ocorrer com todos os gêmeos, começaram a ser notadas. Política, desde o primeiro dia do acolhimento, era mais agitada, era quem primeiro chorava de fome, sempre esperneando, parecia nunca estar satisfeita. Já Mentira era bem mais quietinha. Dormia muito, mesmo com a barulheira da irmãzinha. Pelo menos parecia dormir...mas tinha uma aparência enigmática, parecia sempre ostentar um como que leve ar de riso, que beirava a zombaria; em certos momentos ficava quieta com os olhos semicerrados de modo que não se sabia se estava mesmo dormindo ou fingindo. Estranho.
 
Ao completarem dois anos, foi efetivada a cirurgia de separação, há meses planejada. Equipe médica internacional foi reunida, dado que operação desse tipo jamais houvera. O maior cuidado dos especialistas foi cuidar para que o estômago fosse perfeitamente dividido, e coubesse a cada uma exatamente metade do órgão original, de modo que o crescimento e desenvolvimento de nenhuma das irmãs ficasse prejudicado. E isso de fato ocorreu, registros posteriores atestam cabalmente o formidável crescimento de ambas.
 
A cirurgia foi um sucesso. A recuperação rápida e sem nenhum problema, tanto é que dois meses depois já brincavam alegremente. Agora independentes, pelo menos fisicamente, logo chamou a atenção a união entre elas; não brincavam isoladamente, eram sempre folguedos em que a participação de ambas era necessária e condição indispensável. Notava-se entretanto que Política era mais “agarrada” com Mentira. Nas poucas vezes em que aquela perdia de vista esta, notava-se sua aflição. 
 
A brincadeira preferida de Política era “Caça ao Tesouro” e a de Mentira era “Esconde-esconde”. Às vezes, quando iam brincar, se desentendiam um pouco por causa das preferências diferentes, mas rapidamente se conciliavam.
 
Houve mesmo uma ocasião em que Política deu falta da irmã, por um tempo mais longo, chegando a ficar desesperada, aos prantos, prestes a arrancar os cabelos. Encontrada Mentira, que era procurada por muitos, aflitos também com a situação (cabe registrar que eram adoradas por todos, essas irmãzinhas), foi levada rapidamente à presença de Política que, ao vê-la, literalmente deu um pulo em sua direção e, agarrando-a num abraço fortíssimo, debulhou-se em lágrimas no ombro da irmã. Um pouco mais calma, exprimiu todo o seu sentimento em uma frase que emocionou a todos os presentes, e que ficou conhecida pelos milênios afora, servindo inclusive de lema de vida para muitas pessoas: 
 
“Minha irmã, nunca se afaste de mim, sem você eu não posso viver. Fomos feitas uma para a outra, como nosso nascimento mostrou. Política e Mentira devem ficar unidas para sempre”.
 
Após esse dia notou-se um estreitamento maior ainda entre as duas irmãs. A maior parte do tempo as duas estavam de mãos dadas, nas mais variadas circunstâncias. Embora com características próprias que o tempo acentuou um pouco, mostravam-se cada vez mais unidas. 
 
Política mais marcada ainda pelo seu ar agitado, peralta, muito falante, extrovertida, comunicativa, etc. ,era considerada por alguns, entretanto, pouco inteligente. Tinha certa dificuldade na escola e era dada à cola. E essa inteligência um tanto deficiente digamos assim, era suprida por consultas constantes à irmã, que a inspirava ou dava a dica diretamente. Até mesmo na vida doméstica havia essa ajuda como, por exemplo, quando Política se queixou à irmã das muitas repreensões que recebia da “tia”, por causa de peraltices. Mentira olhou-a ternamente, chamou-a a um canto e ensinou a fórmula mágica : diz pra ela que “num sabe de nada”. Mal sabia ela que isso se transformaria num quase “mantra”, famoso, muito, muito tempo depois, em certo local do mundo.
 
Mentira, mais calada, ar dissimulado, sempre aquele ar de riso zombeteiro nos lábios, era admirada por sua criatividade e capacidade de resolver problemas, ao menos aparentemente. Era considerada uma mestra na arte de sofismar. Quase ninguém ousava confrontá-la em discussões. Alguns que fizeram isso absolutamente convencidos de que eram inocentes e ela culpada, acabavam achando que eram realmente culpados e ela inocente,  ao fim e ao cabo, como iria gostar de dizer, milênios depois, certo político! (Sim, Política deu origem muito mais tarde a essa profissão – político – que tornou-se das mais atrativas do mundo.)
 
Amor fraterno de tal intensidade e durabilidade, impressionou e impregnou tanto a humanidade, que tornou-se um referencial  de comportamento global inspirando milhões e milhões tempos afora,  não só na vida pública como também na privada.
 
Assim resume-se, a história única dessas irmãs siamesas, que continuam e continuarão (até quando?), pelo mundo afora, de mãos dadas.
 
 

Alcides Costa, Manaus, outubro 2018 

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