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09/07/2019 - 08:30

Crise da meia-idade e o mundo real

Carlos Santiago


*Por Carlos Santiago
 
   Acordei mais sonhador. O coração cheio de amor, construindo planos de conquistas e com um desejo de viver intensamente momentos de liberdade e de desafiar as regras que escravizam o homem. Mas no meu caminho havia um espelho, refletindo e duplicando uma imagem sem alma e sem sonhos. Espelhava as marcas dos meus 52 anos de idade e das acnes, ainda tão expressivas no rosto. De repente, as minhas motivações foram embora. Aparecia ali somente um ser biológico com marcas da vida no corpo, com perda de massa muscular, fora do padrão de beleza física dos nossos dias, nostálgico e com incertezas sobre o rumo da vida.
 
   Falei com colegas de profissão sobre as minhas inquietações, os quais me disseram que era normal a existência de conflitos entre corpo e mente e a vontade de reviver o passado, é que tudo isso era fruto da chamada crise de meia-idade. Alguns até confessaram que tinham vivenciados essa fase.  De imediato, procurei saber mais detalhes sobre essa crise, acessei o Google, conhecido como pai dos desesperados e desinformados, logo, encontrei páginas e especialistas que tratam do tema e dão dicas para superar essa fase: evitar autocrítica, não ter medo de envelhecer, buscar diversão com amigos, consultar com frequência um terapeuta, evitar conflitos com a esposa, dentre outros. 
 
   Depois de um período de leituras, pude compreender as causas e consequências da crise da meia-idade. Percebi que não sou portador desse mal. A tal crise é um processo de reflexão, que atinge homens e mulheres, sobretudo, aqueles que na juventude eram de encanto e formosura, mas que agora, começam a perceber que a beleza física tem data de validade e os olhares desejosos dos fãs diminuíram com o passar do tempo; também está naquela pessoa que é muita rica e aos 50 anos de idade começa a se deparar com a limitação do dinheiro, o qual não compra felicidade e vida eterna; ou naquele indivíduo que sempre sonhou em ficar rico, antes de completar meio século de vida, mas não conseguiu; e, ainda, o homem muito poderoso que não consegue aceitar que o poder não é absoluto. 
 
   Ora, nunca tive uma beleza física desejada pelas mulheres, nunca busquei riquezas materiais e nem ser um poderoso da República ou um grande investidor financeiro, além de jamais deixar de buscar um amor sem medida. Então, a famosa crise da meia-idade não chegou, pensei. Claro que tenho nostalgia do passado, e quem não tem? Tenho saudade de quando o Rio Negro era time de futebol, do período em que a festa do boi era somente brincadeira de amigos, dos banhos nos balneários limpos do Parque Dez, das filas do Cine Ypiranga, das paqueras escondidas com as moças vigiadas e das exigentes professoras do colégio Nossa Senhora de Nazaré. Mas isso, não é crise, apenas comparações sociais, numa cidade que passou por muitas transformações. 
 
   Então, para aliviar as minhas inquietações resolvi passear num shopping Center, juntamente com a esposa, tomar sorvete e assistir a um filme. Com a temperatura chegando aos 40 graus, liguei o carro, o rádio e saí. Já na primeira esquina, observei uma família de venezuelano pedindo comida, em outra, um idoso pedindo dinheiro com uma receita médica nas mãos, antes de chegar ao destino, vi crianças queimadas pelo sol vendendo água debaixo de um sinal de trânsito. O rádio noticiava a fala de uma autoridade brasileira que achava normal o trabalho infantil e os índices de desmatamento na Amazônia.
 
   Outra reflexão tomou conta de mim: não seria egoísmo de minha parte passar o dia tentando entender a crise da meia-idade, enquanto pessoas buscam suprir suas necessidades básicas, desejam somente comida, um abrigo, remédio, cuidados e governantes sensatos. São problemas e crises que a humanidade ainda não superou, mas que merece atenção de todos.
 
*Sociólogo, Analista Político e Advogado.

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