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12/10/2018 - 06:05

OSSOS DO OFÍCIO

 


* Edclei Estevam de Vasconcelos
 
A profissão de mensageiro telegráfico, assim como a de bombeiros, médicos, entre outros, que chegam a lidar com o cotidiano, as dificuldades, o dia-a-dia, e a vida dos cidadãos de nossa diversificada sociedade, às vezes não chega a ser muito fácil. Para aqueles que trabalham neste tipo de serviço (telegráfico), o sigilo da mensagem e profissionalismo é de fundamental importância. Todos nós certamente gostaríamos de receber somente notícias boas: uma chamada de emprego, convites de casamento, telegramas de aniversário, de natal, de ano novo, do dia das mães e dos pais, dia dos namorados, o sorteio de um carro, um prêmio ou imóvel etc. No entanto, a nossa realidade na vida nos mostra que, infelizmente, as coisas não são bem assim... 
 
Trabalhando no setor telegráfico num belo domingo ensolarado, o nobre carteiro estava, por volta das 16h30, entregando uma grande quantidade de telegramas. Ao chegar a um  determinado endereço, localizado no Bairro Alvorada, soltou o famoso grito de guerra: “COOORRREEEIOSS! COOORRRREEEIOSS!” Em pouco tempo, alguém grita de dentro da casa e pede para esperar um pouco. Põe a mão e em seguida a cabeça na janela, e, diante do nobre colega, pergunta: "pois não senhor carteiro? Em que posso ajudá-lo?" O carteiro responde ao cidadão que gostaria de saber se a senhora Maria Aparecida* morava ali e se estava em casa. Pois tinha um telegrama em mãos para lhe entregar. Imediatamente o senhor disse que sim, que a senhora morava naquele endereço. Só que naquele momento, ela não estava em casa e estaria em um bar bem próximo, tomando umas cervejas, localizado logo no final daquela rua. 
 
Para não retornar com o telegrama, e por motivo de segurança postal, preferiu entregá-lo pessoalmente ao destinatário. Ele então seguiu até o local do barzinho. Chegando lá, havia várias pessoas conversando, bebendo, se divertindo... Ao se aproximar do bar, e por ser benquisto na área, as pessoas logo lhe perguntavam: “E aí, amigo carteiro!? Telegrama para mim!? Ou para o meu amigo aqui? Já sei! Acertei na loteria! Melhor ainda, tem dinheiro para eu receber?” Se for coisa boa pode deixar que eu assino, disse outro cidadão que, juntamente com os demais, estavam se divertindo. 
O nobre colega agradeceu as brincadeiras e o carinho daquelas pessoas, mas disse que estava procurando uma senhora de nome Maria Aparecida*. De repente, todos apontaram para uma mesa bem ao fundo do bar, onde havia uma senhora tomando cerveja sozinha, bastante pensativa, distante da agitação. 
 
O próprio dono do bar comentou para o amigo carteiro: “É aquela senhora ali, senhor carteiro!”. Ao se aproximar da nobre senhora, logo perguntou: “Minha senhora, com licença? Porventura, a senhora se chama Maria Aparecida?” Ela levanta a cabeça,  olha fixamente para o carteiro, dá um sorriso com um olhar meio triste, põe a mão no queixo, balança a cabeça para cima e para baixo, depois respira fundo, solta o ar e, com uma voz trêmula, diz: Sim... sou eu mesma, senhor carteiro”. 
 
Em seguida o carteiro lhe explica: “Tenho um telegrama endereçado para a senhora, desculpe vir até aqui.  A senhora quer recebê-lo, ou prefere que eu o deixe em sua casa?” Ela responde: “Eu creio que sei do que se trata, eu vou receber o telegrama”. O carteiro então pede a senhora que assine no local indicado, destaca o canhoto de recebimento e entrega o telegrama. Em seguida, ao se retirar do barzinho, todos escutam: “Não, Mãe! Não, Mãe! Não nos deixe, mamãe!” E a mulher começa a chorar... Todos que estavam brincando, jogando bilhar, se divertindo e bebendo no bar, seguiram em sua direção para saber o que estava acontecendo. 
 
Sabendo naquela ocasião, que sua mãe estava muito doente em sua terra natal, e acabara de falecer, o carteiro não se conteve. Voltou ao bar, seguiu em direção daquela senhora novamente, dizendo: “Minha senhora, perdoe-me, me desculpe pela notícia, mas faz parte do nosso trabalho. Meus pêsames pelo falecimento de sua amada mãe. Também já não tenho meus pais comigo”. A senhora foi se acalmando pouco a pouco, agradeceu as palavras do carteiro e dos demais presentes no bar. Em seguida, o carteiro pediu licença e seguiu seu caminho...
 
*O carteiro boa praça     
 

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