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01.03.2021 - 00:05  |  ZFM 54 ANOS

ZFM precisa formar empreendedores do conhecimento, afirma Manoel Cardoso

Reproduo

Manoel Cardoso

Mestre na área da produção industrial, Manoel Cardoso afirma que "é preciso olhar o que que será a indústria de amanhã" e destaca que "hoje, o maior valor agregado não está mais no material, no físico, está no intelectual".

Por Warnoldo Maia de Freitas
 
  amazonense Manoel Cardoso, professor, mestre, doutor, pesquisador e especialista na área da produção industrial, membro da Academia Nacional de Engenharia (ANE), afirma que o modelo Zona Franca de Manaus chegou aos seus 54 anos pronto para enfrentar novos desafios, depois de ter superado desmandos e medidas “equivocadas” colocadas em prática por governos e governantes ao longo da sua história. 

Conhecedor como poucos da realidade do chão de fábrica, das peculiaridades do modelo Zona Franca de Manaus e da região Amazônica, Manoel Cardoso ressalta que a ZFM precisa investir mais na qualificação e aprimoramento do seu capital intelectual para poder enfrentar os novos tempos.

Segundo ele, o modelo Zona Franca  de Manaus precisa investir na formação de empreendedores do conhecimento, para criar as condições de alta competitividade nessa nova vertente da indústria quatro ponto zero.

CONFIRA  A  ENTREVISTA  

  WMF -  Qual a análise que o senhor faz do modelo ZFM, que chega aos seus 54 anos?  A ZFM comercial acabou faz tempo. Quais os principais desafios?
 
Manoel Cardoso - A Zona Franca de Manaus cumpriu um papel importantíssimo, que foi o de gerar um polo de desenvolvimento sócio-econômico na região Norte do país, uma região estratégica para os interesses da Nação. Nós temos hoje um polo industrial maduro e competitivo, sob vários aspectos, apesar de termos dificuldades devido ao distanciamento dos  principais centros consumidores. Mas, sem dúvida nenhuma, temos hoje um nível de competência, de maturidade, em alguns setores fabris, que não deixam nada a desejar em relação a polos industriais em outros lugares do mundo, não só no Brasil.
  
 WMF -  O modelo ZFM foi implantado por um governo militar para promover o desenvolvimento econômico e social da região, bem como para substituir importações e, depois, buscou incrementar a indústria nacional de componentes e agilizar o processo de absorção de novas tecnologias. Aos 54 anos o modelo atingiu seus objetivos?
 
Manoel Cardoso -  Sim, atingiu. O exemplo que eu posso dar é o setor, por exemplo, de componentes plásticos. Hoje nós temos uma base de indústria de transformação termoplástica com um nível de competitividade e competência que não nos deixa nada a desejar em relação a outros polos. Volto a dizer, não só no Brasil, mas, como fora do Brasil, também, assim como no setor de metalurgia.
 
  WMF -  E por que a indústria de componentes não deslanchou?
 
Manoel Cardoso - A indústria de componentes do modelo Zona Franca de Manaus teve um papel fundamental na consolidação do modelo, mas depois essa indústria de componentes veio sendo combalida, constantemente, pelos chamados processos produtivos básicos, onde não há, a nosso ver, uma avaliação criteriosa sobre aquilo que deve ser mantido, como parte do incentivo para a indústria de componentes local, e aquilo que deve ser evitado, porque não nos dá condição competitiva para fazer o produto final. Ou seja, tudo deve ser avaliado quando discutido esse PPB, sobre os critérios da realidade atual que nós temos no polo. Nós não podemos, simplesmente, abandonar a ideia da indústria de componentes, porque essa indústria tem um papel fundamental, uma capacidade de flexibilidade e de adaptabilidade que o modelo Zona Franca de Manaus tem. No momento em que há uma variação cambial, quando o dólar se torna muito caro, as indústrias nacionais se voltam para os fabricantes regionais e nacionais, por razões óbvias, e se você não tem essa capacidade de fornecimento de componentes, você compromete, no médio e longo prazos, a indústria de bens finais.

  WMF -  O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, prevê uma certa "desglobalização" após a passagem dessa pandemia e destaca que a ZFM pode absorver a chegada de novas indústrias. O senhor acredita que o capital intelectual disponível atende a necessidade da indústria de alta tecnologia?
 
Manoel Cardoso - Sim, eu creio que sim. Nós temos algumas competências muito bem estabilizadas e estabelecidas, porém existem outras competências que precisam ser desenvolvidas. Nós precisamos urgentemente retomar, e eu não falo só de Manaus, eu falo do Brasil, os investimentos, de forma pragmática, na recuperação da qualidade de formação do nível técnico e do nível médio. É importante que se tenha, obviamente, os conhecimentos conceituais, os conhecimentos explícitos, o famoso know how, mas é também fundamental que se tenha o to do, o fazer, e nessa questão do fazer, necessariamente, nós estamos falando do nível médio, do nível técnico, que são as pessoas que operacionalizam, principalmente, as máquinas, as estações de trabalho, os equipamentos. Eu creio que o Polo Industrial de Manaus está preparado para absorver as novas tecnologias. Eu concordo plenamente com a visão do vice-presidente Mourão.

  WMF -  E a política industrial brasileira atende às necessidades do modelo ZFM? O que precisa ser feito para dar mais dinamismo à indústria?
 
Manoel Cardoso - Que política industrial? Nós não temos uma política industrial no país, o que nós temos é uma bagunça.
 

 
  WMF -  Muito se fala sobre uma nova revolução industrial, um novo conceito de manufatura, sobre a chegada da indústria 4.0. O senhor, como mestre nessa área, considera que o capital intelectual existente em nosso estado está preparado para esses novos tempos? Para atender empresas de alta tecnologia, que exigem mão de obra qualificada?
 
Manoel Cardoso - Pois é. Quando você fala de indústria quatro ponto zero, não é uma questão apenas tecnológica, é uma questão de cultura, de organização de manufatura. Ela envolve o contexto como um todo. Do ponto de vista técnico eu não vejo a menor dificuldade para que a Zona Franca de Manaus possa absorver isso e eu posso te dar exemplos de coisas práticas que já estão acontecendo. Nós já temos realizado parte dessa implementação do que a gente chama de indústria quatro ponto zero, que nada mais é do que a evolução da manufatura enxuta, numa visão em que você passa, através das tecnologias aplicadas, a dar uma certa autonomia descentralizada de tomadas de decisões e adaptações em relação às mudanças que ocorrem no ambiente. É claro que precisamos gerar competências de forma mais formalizada em diversas áreas, não apenas na tecnológica.




  WMF -  Então, qual seria o grande desafio?
 
Manoel Cardoso - Eu diria que o grande desafio é o cultural. Eu vejo, hoje, cada vez mais acentuada a importância, por exemplo, da área de RH dentro das organizações e para esse desafio a Zona Franca de Manaus tem todas as condições para enfrentar e já está implementando coisas que não vejo em nenhuma parte do Brasil.

  WMF -   O que precisa ser feito?
 
Manoel Cardoso - O que precisa ser feito é investir em educação de qualidade e pragmática. Precisamos desenvolver nessa educação a vertente do empreendedorismo do conhecimento. Nós precisamos de um modelo educacional, que a gente precisa e deve implantar, voltado para o fortalecimento de lideranças. Hoje nós somos carentes nisso e essa liderança deve ser pela liderança do exemplo. O substrato aí é diferente de ensinar e educar, porque educar se faz com exemplos. Então, o que nós precisamos, de fato, é de uma abordagem, e não falo apenas da Zona Franca de Manaus, mas do Brasil, é de uma abordagem no sentido de recuperação da qualificação técnica nos vários níveis das pessoas para atender a essas novas demandas que nós vamos ter. E, sem dúvida, o capital intelectual tende a uma altíssima valorização. Há uma tendência de diminuição da mão de obra intensiva, de baixa qualificação. Nós precisamos atuar nesses dois vetores, na formação de capital intelectual para que nós possamos absorver aquela mão de obra que, se não tiver qualificação, vai estar ociosa gerando custos adicionais para a sociedade.

  WMF - Qual o melhor caminho para capacitar a mão de obra local, agregar mais tecnologia na produção e ser mais eficiente?
 
Manoel Cardoso - Modelar um programa de educação técnica para o nível médio. Eu vejo essa como a principal ação imediata para que a gente possa estabelecer as condições da eficiência necessária. Há uma necessidade de formação de pessoas na área técnica. Mas, precisamos formar pessoas com capacidade de discernimento, de análise crítica e criatividade. Volto a dizer que precisamos formar empreendedores do conhecimento se realmente queremos criar as condições de alta competitividade nessa nova vertente da indústria quatro ponto zero.
 
 
 
  WMF - Em 2019 o senhor foi à Alemanha, integrando uma comitiva da Suframa. Quais os resultados dessa viagem?
 
Manoel Cardoso - Ali nós vimos o berço da indústria quatro ponto zero, o  que representou, de fato, esse modelo. Nós constatamos que a ênfase para essa nova abordagem industrial está, fundamentalmente, na inovação tecnológica, onde a conectividade, a digitalização da organização de manufatura  permite que, com recursos tecnológicos, as indústrias adotem cada vez mais uma postura de um organismo vivo, capaz de se adaptar, de forma autônoma e evolutiva, diante da dinâmica cada vez maior dos mercados consumidores. Vimos essa realidade e nos posicionamos com relação ao nosso status atual e o que precisará ser feito. Acredito que deva haver um esforço por parte, principalmente, das organizações civis, no que diz respeito à economia de manufatura do estado - Federação das Indústrias e Centro das Indústrias -, para que possamos restabelecer os parâmetros  necessários, e volto a dizer, o principal deles é a educação técnica,  para a retomada da nossa competitividade.
 
  WMF  - O que se pode dizer, atualmente, sobre a competitividade das indústrias instaladas no Polo Industrial de Manaus?
 
Manoel Cardoso - Hoje nós temos setores extremamente competitivos dentro da Zona Franca de Manaus. Citei o setor plástico, posso citar o setor de manufatura de placas de circuitos eletrônicos, posso falar também da área de injeção de alumínio. O que a gente precisa observar é que as empresas têm investido na melhoria da sua produtividade e da sua competitividade. Mas, o que ainda é um fator extremamente penoso é o problema da infraestrutura, que começa desde as vias de transporte dentro do próprio Distrito Industrial, e a gente vê, agora, um esforço no sentido de recuperação dessas vias, até a questão das opções de modais logísticos que são, ainda, um fator que prepondera na dificuldade da competitividade da indústria local.

  WMF -  O chamado "Custo Brasil" - que engloba, entre outras coisas, a falta de infraestrutura adequada, além de um complexo sistema jurídico, fiscal e trabalhista - compromete o desempenho das indústrias instaladas na ZFM? Qual a saída possível?
 
Manoel Cardoso - O Custo Brasil é uma realidade inquestionável, perceptível, que nos impacta demais. A gente ainda tem um sistema de portos extremamente precários, pouco competitivos e bastante onerosos. Eu creio, sim, que a gente tem que pensar na  indústria do amanhã, no novo modelo do Polo Industrial de Manaus, onde a gente deve lembrar, como o previsto e está se confirmando, que o principal insumo de qualquer processo de manufatura tem se tornado cada vez mais a competência criativa, inovativa, a competência em várias áreas dos setores tecnológicos e, principalmente, boa parte dessa indústria, que demanda essa competência, tem como logística a internet.
 
   WMF - O senhor poderia explicar melhor esse ponto?
 
Manoel Cardoso - A indústria de software, por exemplo. Temos o exemplo da Índia, que hoje exporta códigos para o mundo todo, gerando uma receita fantástica. E qual é o insumo utilizado nisso? Conhecimento, competência. E qual é a logística disso? A internet, com custo praticamente zero. Isso, inclusive, pode ser uma motivação para um desenvolvimento voltado para o interior do estado, visto que a internet, os projetos de extensão da internet para o interior do estado, vão dar essa conectividade, onde a competência, como sempre coloco, não é de uma questão de posição geográfica, mas, da espécie humana. O que nós precisamos fazer é buscar os talentos, dar condições para esses talentos poderem se desenvolver, realizar e servir de referência,  para os que estão à sua volta seguirem esses caminhos virtuosos. Temos que olhar, sim, o que que será a indústria de amanhã, porque nós  estamos vendo as novas tecnologias destruírem mercados e produtos e criarem novos mercados e novos  produtos. Hoje, o maior valor agregado  não está mais no material, no físico, está no intelectual.
 
 
 
   WMF -  Como o senhor classifica os investimentos em atividades de pesquisa e desenvolvimento na ZFM e na Amazônia?
 
Manoel Cardoso - Recursos não têm faltado. Os recursos da Lei de Informática têm sido abundantes. O problema tem sido os resultados obtidos com esses recursos, que têm deixado muito a desejar e acho que isso é óbvio, é transparente para todos nós. A meu ver, a razão disso é que inovação, pesquisa e desenvolvimento nunca foi, fundamentalmente, uma questão de recursos, sempre foi uma questão cultural.
 
  WMF - Então, qual a solução?
  
Manoel Cardoso - Você precisa fazer com que as pessoas pensem ou aprendam a pensar diferente para fazer as coisas diferentes e essas coisas diferentes se transformar em inovações e resultados. Eu vejo que outro fator extremamente importante é a capacidade de decisão local, do ponto de vista estratégico sobre pesquisa e desenvolvimento. As grandes  multinacionais,   honestamente nunca  imaginaram fazer, de fato aqui no país e ainda mais na Amazônia, com raríssimas exceções, como a Honda, que tem um centro de desenvolvimento aqui.
A grande maioria vê os recursos de pesquisa e desenvolvimento como uma obrigação que deve ser feita da melhor maneira  possível, mas nem de longe passa pelas necessidades das estratégias de pesquisas e de desenvolvimento de nível global.
Por isso que eu considero extremamente importante uma valorização diferenciada para as empresas cujos acionistas ou estão no Brasil, mas preferencialmente aqueles que estão em Manaus, que têm um nível de comprometimento maior com a nossa região, com relação a isso. Por isso acredito que é preciso rever a forma como se trata esses recursos,  principalmente, os gerados por essas multinacionais. 
 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 

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